OPINIÃO: A Lei Áurea da Revolução Digital

O Bóris Casoy teria razões de sobra para dizer de boca cheia seu célebre jargão durante a Copa do Mundo FIFA 2026 "Isso é uma vergonha...

segunda-feira, 22 de junho de 2026

OPINIÃO: A Lei Áurea da Revolução Digital


O Bóris Casoy teria razões de sobra para dizer de boca cheia seu célebre jargão durante a Copa do Mundo FIFA 2026 "Isso é uma vergonha" e não estou falando da preparação da Seleção Brasileira. O monopólio Global, a meu ver, pelo menos na mídia tradicionalista, está longe de acabar. Só mesmo quando um asteroide cair sobre nosso país que tudo vai terminar. Os chamados "miseráveis", que não possuem um smart-phone sequer por mais "vagabundo" que seja, devem estar aborrecidos e magoados com o fato de presenciarem o maior veículo de comunicação do Brasil, o Grupo Globo, limitar o número de jogos transmitidos desta Copa do Mundo e impor regras doentias para certas concorrentes (leia-se o simulcast SBT/N-Sports) que se atreverem a dividir a transmissão com ela e mostrar os mesmos 32 jogos que a dita cuja mostra, alegando "direitos de licenciamento", e privar o grande público de assistir muitos jogos importantes em tempo real dessa que é, sem dúvida, a "maior Copa de todos os tempos". É o mesmo modus-operandi de 20 anos atrás, em que a Band, por contrato, repetia os mesmos jogos transmitidos pela Globo no Paulistão, Copa do Brasil e Brasileirão, e acabou com a fonte seca (cujas sequelas são sentidas até hoje em seu caixa). Ou seja, licenciamento imposto por um grupo de comunicação faz mal para os cofres. O YouTuber Allan Simon, especialista em mídia esportiva, chegou a comentar que esse tipo de método de licenciamento de direitos de transmissão de futebol não é nada viável. Será que a Globo quer se vingar do SBT? Com a intensão de quebrá-la financeiramente após ter sofrido 45 anos de bullying da mesma?

Outra decepção é na TV paga e, nesse ponto, agora entendo o quão é nocivo para o ecossistema das comunicações auriverdes o tão alardeado "Uma Só Globo". Creio eu que é um mecanismo de aglutinar num único CNPJ os direitos de transmissão do esporte em geral (não só o futebol). E cada vez mais o esporte vem se fortalecendo como uma das principais atrações do audiovisual brasileiro, ao lado do jornalismo, séries e filmes de longa-metragem. Isso é fatal pois expõe a vulnerabilidade daqueles que vendem esses direitos de transmissão e aceitarem caçambas de dinheiro, ao mesmo tempo em que são neutralizados no que diz respeito a imposição de regras, permitindo uma coleção de vendas casadas. Mais uma vez, o SporTV cometeu mancada e está repetindo os mesmos limitados jogos que sua matriz da TV aberta está transmitindo, só que com equipe própria. Eu até desisti de acompanhar a Copa pelo canal pago, os narradores estão exagerando demais nos gritos (coisa que não era do feitio de alguns locutores "comportados"). Não se pode igualar em um só CNPJ a abordagem do evento de outras plataformas, cada plataforma tem seu tipo específico de público, abordagem e linguagem, essa é a conclusão que eu tiro. Deveria ter um mínimo de respeito aos públicos diferenciados para cada plataforma existente. Pra refrescar a memória, na última Copa, então com 32 países e 64 partidas, o SporTV deixou de mostrar quatro desses jogos em tempo real em seus canais alternativos e o contrato para FWC Catar/2022 obrigava o Grupo Globo a mostrar ao vivo todos os 64 jogos, mas na última rodada da fase de grupos, por exemplo, mostrou ao vivo (pelo Grupo H) Uruguai x Gana e fez Portugal x Coréia do Sul se relegar a uma exibição em delay (o antigo VT completo). O segundo canal maratonava as lutas do Campeonato Mundial de Judô, até aí tudo bem, mas o terceiro canal teve a pichorra de reprisar uma partida do Novo Basquete Brasil bem na hora do jogo. Como pode o maior grupo brasileiro de comunicação usufruir de um único CNPJ para querer a exclusividade da Copa pra todo sempre amém, limitando o número de transmissões para TODAS as plataformas que tem a disposição e privando o público em poder acompanhar ao menos os resultados em tempo real daqueles jogos tachados de "medíocres" pela grande mídia?!


A salvação da lavoura está num canal do YouTube que, neste momento, vem revolucionando o modo de se cobrir, transmitir e assistir um jogo de futebol numa tela qualquer, seja smart-phone, tablet, laptop, notebook, PC tudo em 1 ou smart-TV. E não satisfeito com isso, está se tornando o porta-estandarte da Revolução Digital que o Brasil tava precisando desde o lock-down da pandemia da Covid, em que os macacos-velhos de plantão não se enxergaram e nem sequer reviram seus suspeitosos conceitos, preferindo moldar nossa sociedade em troca de muita propina. Tem gente que não gosta, o fã-clubismo das redes sociais por certas emissoras abertas sente uma inveja inflamada na maior covardia, mas temos que admitir que a CazéTV mal iniciou os trabalhos da FWC United/2026 e começou goleando a mídia convencional mostrando TODOS os 104 jogos da competição. O que começou com uma sociedade numa obscura plataforma paga chamada Twitch, há quatro anos, para a exibição ao vivo de jogos do Atlético-PR, hoje o canal cresceu tanto que suas transmissões esportivas são gratuitas e liberadas para todos (independente se você é inscrito ou não) e vem melhorando seu nível a cada dia, apesar da linguagem adaptada (e aceitável) das redes sociais, sempre contando com uma generosa cota de seriedade (como não pode deixar de ser), para uma mídia nova que, aos poucos, vem sendo descoberta e ganhando notoriedade. No streaming, você pode dizer, com classe, que "fulano é foda" e "cicrano cometeu uma cagada", coisas que até mesmo numa TV paga você não pode se atrever a balbuciar (agradeçam ao falso-moralismo que moldou a TV brasileira de tubo). O Casemiro Miguel, que atua como comentarista nas transmissões, está de parabéns, ele é um cara esperto que percebeu o potencial do streaming livre no filão esportivo, uma atração que jamais deverá sair do ar em nenhuma plataforma audiovisual brasileira. Posso dizer que o tal Cazé (de Casemiro, nada tem a ver com o Cazé Peçanha, ex-VJ da saudosa MTV Brasil) está se tornando uma espécie de mecenas do esporte brasileiro nas telas, ou melhor, cumprindo o papel de "Princesa Isabel da comunicação brasileira", isso justifica o título deste post. Nas palavras do outro Cazé "Aêêê, sensacionaaaal!!!".

Se ao primeiro momento, eu imaginava um grupo sarrista e piadista tanto quanto há fartamente na TV aberta (que adora a exposição ao ridículo), logo quando começou a Copa me surpreendi. A equipe da CazéTV tem carisma e é super antenada, os comentários repletos de detalhes incríveis e conteúdo considerável, capazes de transformar um jogo dito "medíocre" numa atração de primeira grandeza. Sobre seus integrantes na cobertura da Copa, destaco na narração, Marcelo Hazan. Ele tem um timbre de voz agradável e adequado para uma transmissão de futebol dos novos tempos, sem gritos excessivos. Temos o experiente Fernando Nardini, que captou logo de cara a vibe da CazéTV e vem conseguindo um ótimo desempenho, mas precisa controlar um pouco seus "surtos". Foi uma boa contratação para o canal do veterano Narda, aliás, eu o acompanho há muito tempo, desde quando ele atuava na TV aberta, com passagens na Band e na Record. O Gonçalo Luís também tem um tom de voz aceitável, mas precisa rechaçar um pouco os gritos que aí vai melhorar bastante sua performance. Lógico que os agudos do Raony Pacheco e do Alex Zudo incomodam um pouquinho, mas é bom sempre separar o joio do trigo, já o Luiz Felipe Freitas vem progredindo com uma incrível segurança, controlando com sabedoria seus supostos "berros" e melhorando cada vez mais seu nível, tendo a consciência e a responsabilidade de ser o titularíssimo do canal, ganhando cada vez mais a confiança do "comparsa" Casemiro Miguel. No time de comentaristas, a mulherada vem demonstrando que entendem muito de bola, dão mostras de confiabilidade e estão bem atentas com as condições físicas dos craques da Copa. A Laura Luzzi e a Amanda Vianna mostram que beleza não põe mesa e são bastante eloquentes no timing das palavras bem colocadas durante as transmissões. Lógico que a experiência de uma Juliana Cabral (ex-capitã da Seleção Brasileira Feminina de Futebol) vem fazendo toda diferença, sua visão de jogo, até de duelos aparentemente "medíocres", é incrível. Pelo menos, a CazéTV não se contenta em transmitir os jogos em off, tem pelo menos uma equipe em cada local onde os jogos estão sendo realizados. Não vejo até agora da parte deles nenhuma patriotada excessiva de "gente ignorante", que é uma coisa tão comum que enche o saco de quem bate o pé pela TV aberta (leia-se Rede Globo) e a obsessão pela ultrapassada batalha ibopística vinda de um instituto homônimo que não troca a TV de tubo e o computador de 8 bits pelas mídias digitais por nada deste mundo. Isso me cheira a sujeira escondida por debaixo do tapete (os conchavos entre os Marinho e os Montenegro), não acham?


Acho muito desnecessária (e uma grande bobagem) essa briga mesquinha entre o Grupo Globo e a CazéTV pelos direitos de transmissão do esporte, até porque "o sol brilha para todos". Cada um tem sua plataforma específica e, torno a repetir, seu público específico para tal: quem prefere o streaming livre, vai sempre assistir futebol no streaming livre, agora quem gosta de ver na TV aberta, irá sempre ver a bola rolando na TV aberta, assim como na TV por assinatura. O público mais maduro, adulto e idoso, que mais assistem TV aberta no Brasil, jamais terão um comportamento "descolado", meio que imposto pelas grandes redes. Isso é democratizar as comunicações, que procura acabar com a maldição da competição, mas, culturalmente, o Brasil não gosta de democracia, nosso povo prefere mesmo ser macaco de auditório. Na virada do século, quando o Grupo Globo firmou "oligopólio" com a CBF, limitou as transmissões em TV aberta dos campeonatos nacionais para duas ou três transmissões por semana e olhe lá. Os torcedores mais antenados percebeu que isso já não dá mais, desde após o lock-down da pandemia da Covid. É só notar que as mídias digitais, principalmente os streamings pagos, se privaram de mostrar um jogo sequer do Brasileirão, ou pelo menos uma transmissão por dia, o que no meu entendimento considero o procedimento mais correto. Mas e as outras modalidades? Vejam o caso da Fórmula 1. Quando a Band possuía os direitos de transmissão até pouco tempo, as mídias sociais no Brasil foram premiadas e agraciadas com imagens das corridas e algo mais, desde os melhores momentos até os em tempo real, mas bastou voltar para o ninho Global e deu pra trás, ou seja, voltou tudo como era antes. Porque que a ostensiva RecordTV não comprou a transmissão da Fórmula 1 para o Brasil? O SporTV mostra só os treinos e a Globo aberta as corridas em tempo real, na esperança de que consiga aquela audiência de antigamente (que pensamento mais retrógrado) e fazendo uma torcida descaradamente inútil para que o coitado do Gabriel Bortoleto se torne o novo Ayrton Senna (mesma coisa que fizeram com o Rubens Barrichello a partir da segunda metade dos anos 90). Ele só tá aprendendo e tem um estilo totalmente diferente dos outros pilotos brasileiros que vieram antes dele, ora essa. Pra vocês verem como a Globo até hoje não se acostumou ainda com a perda do piloto e com a seca que o automobilismo brasileiro vem enfrentando desde 1991. Pode isso, Regi?!

Eu adoraria muito que, no futuro, alguma empresa especializada em mídia esportiva do nosso país (sem ser grupo de comunicação, é claro) seja a detentora oficial dos direitos de venda de tudo quanto é transmissão de evento esportivo aqui no Brasil em tudo quanto é tipo de plataforma, sem privilegiar ninguém, e para as próximas Copas, sugiro a FIFA que a venda para cada plataforma audiovisual no Brasil seja dividida em um montão de blocos, como acontece na Alemanha, em que a própria federação de futebol colocou a venda uma porção de pacotes de transmissões do futebol nacional (copas e ligas) por quatro temporadas e faturou 4,4 BILHÕES de euros. Desde que seja para um CNPJ diferente, sendo absolutamente proibido o recurso de vendas casadas. Vejam minha sugestão:

Plataforma TV Aberta:
Pacote A - 104 jogos (92 em tempo real + 12 em delay)
Pacote B - 92 jogos em tempo real
Pacote C - 64 jogos licenciados em tempo real (sendo 2 por dia)
Pacote D - 32 a 36 jogos licenciados em tempo real (sendo 1 nos dias úteis e 2 nos finais de semana)

Plataforma TV Paga:
Pacote A - 104 jogos em tempo real
Pacote B - 104 jogos (92 em tempo real + 12 em delay)
Pacote C - 92 jogos em tempo real
Pacote D - 64 jogos licenciados em tempo real (sendo 2 por dia)

Plataforma Streaming Aberto (ou canais fast):
Pacote A - 104 jogos em tempo real
Pacote B - 92 jogos em tempo real
Pacote C - 64 jogos licenciados em tempo real (sendo 2 por dia)
Pacote D - 32 a 36 jogos licenciados em tempo real (sendo 1 nos dias úteis e 2 nos finais de semana)

Plataforma Streaming Pago:
Pacote A - 104 jogos em tempo real
Pacote B - 92 jogos em tempo real
Pacote C - 64 jogos licenciados em tempo real (sendo 2 por dia)
Pacote D - 32 a 36 jogos licenciados em tempo real (sendo 1 nos dias úteis e 2 nos finais de semana)

Voltando para a CazéTV, o canal é capaz de transformar um evento de segundo escalão em algo portentoso. Por isso, peço licença aos seguidores deste blog e mando aqui uma lista de algumas sugestões de eventos esportivos bem atrativos que o canal que virou notícia, um autêntico fenômeno de comunicação do ano, poderia transmitir num futuro próximo. Eventos estes relegados ao modo "medíocre" da dita grande mídia clubista e fã-clubista que nossa péssima cultura midiática tratou de moldar.

1) Universíada - Uma olimpíada disputada desde 1959, de dois em dois anos, com poucas modalidades com a participação apenas de atletas em nível universitário, tipo um sub-20 poliesportivo. O Brasil já sediou o evento, em 1963 em Porto Alegre, e a próxima edição vai ser em agora em 2027 na cidade de Chungcheong, na Coréia do Sul. Na última edição, realizado ano passado em Reno-Ruhr, na Alemanha, o Brasil conquistou duas medalhas de ouro, três de prata e sete de bronze. As medalhas de ouro foram conquistadas no basquete masculino (vencendo na final os Estados Unidos!) e no taekwondô (categoria até 57 kg) por Maria Pacheco.

2) Torneio Internacional de Toulon - uma competição bastante tradicional que reúne seleções de categorias de base do mundo todo (basicamente sub-21), disputado anualmente no sul da França, não necessariamente em Toulon, mas também em Aubange e Avignon, revelando grandes jogadores. Organizada regularmente desde 1974, é também chamada de "Festival Internacional de Esportes" ou "Torneio Maurice Revello". O Brasil já foi campeão desse torneio nove vezes (a última em 2019, revelando Matheus Cunha), só perdendo para a França, dona-da-casa, com 14 conquistas.

3) Liga MX - que pode ser perfeitamente chamada de Campeonato Mexicano de Futebol. Até porque o futebol mexicano sempre atraiu a atenção dos brasileiros e conquistou nossa simpatia. Houve uma época em que time mexicanos disputavam a Copa Libertadores da América e muitos desses times se tornaram bastante conhecidos pelo torcedor brasileiro. É um tipo de liga de futebol que merece estar no mesmo patamar que as ligas inglesa, alemã, espanhola, italiana, portuguesa, francesa, argentina, brasileira, japonesa, árabe, etc, etc, etc...


Deveria também investir em ações promocionais, com a intensão de melhorar não só o calendário do futebol, mas a organização de certas competições nacionais e internacionais e resgatar a essência de poder revelar de verdade os craques do futuro. Adoraria que a CBF pudesse promover a fusão de três grandes competições concentradas de categorias de base aqui do Brasil, organizadas por federações estaduais, que infelizmente, deu brecha para olheiros na caça de jogadores-revelação em troca de contratos para o exterior, sem dar tempo do atleta ter a chance de se firmar no "time de cima" do clube em que joga. A Copa São Paulo de Futebol Júnior, a Copa BH de Futebol Sub-17 e a Copa RS de Juniores viraram farra para esses empresários inescrupulosos e a CazéTV poderia tomar frente para que a CBF unificasse esses três torneios num só, sempre no mês de janeiro, diminuindo em quantidade e aumentando em qualidade, resgatando o objetivo principal do surgimento de novos jogadores. Outra ideia seria o canal promover um "concurso-reality" estimulando seus seguidores a elaborarem e sugerirem propostas concisas para um novo calendário do futebol brasileiro. Uma demonstração de que o torcedor não está apenas de braços cruzados torcendo enlouquecidamente para seu time do coração, ele quer sugerir, quer opinar, quer mostrar a cartolagem que dá pra melhorar as coisas com a bola rolando (mesmo que não seja aquela unanimidade). Além de poder criar um game-show (tipo Jeopardy) para testar os conhecimentos dos seguidores em relação as histórias do futebol.

É isso, vamos sair do convencional porque isso nos permite estimular a expandir nossos horizontes não só por uma TV melhor, mas por um esporte melhor e por um futebol melhor. Bola pra frente, Brasil! Agora, se você é hater da CazéTV, pode não saber, mas com certeza, no fundo, você não passa de um SBTista enrustido. Fique com sua TV de tubo e espere terminar a novela da Globo pós-JN para assistir aos maiores clássicos da pornochanchada brasileira ou mais um episódio de Largados e Pelados Brasil. E que nos deixe em paz!
😛

sábado, 28 de março de 2026

ESPECIAL: Justiça ao Hamilton Lucas de Oliveira


TV aberta hoje é coisa pra terceira idade. Isso não é uma ofensa ou provocação sarrista, é a mais pura realidade. Cerca de 90% das pessoas que atingem a casa dos 60 anos, seja homem ou mulher, são as maiores consumidoras de TV aberta no Brasil. Escravos da Globo? Aversão a digitalização? Resistência ao streaming? Ou problema cultural? Se a TV 3.0 tem a intensão de "salvar" a TV aberta brasileira, prestem atenção na história a seguir, trata-se de uma tentativa de salvação não-correspondida.

Em 1992, a Rede Manchete se encontrava numa crise avassaladora e seu proprietário, Adolpho Bloch, tinha cogitado publicamente a possibilidade de vender a emissora, até porque sua dívida ultrapassava a casa dos 100 milhões de dólares. O que motivou tal situação foi o fracasso retumbante da novela Amazônia, cuja proposta era ser uma "continuação" do monstruoso sucesso que Pantanal havia sido.

Em São Paulo, havia um conglomerado que não tinha nada a ver com o audiovisual, a Indústria Brasileira de Formulários, que atravessava um momento de prosperidade plena. Seus serviços eram solicitados, tanto do setor privado quanto do setor público, para a impressão de documentos de identidade, passagens de avião, talões de cheque, papéis-moedas e, principalmente, bilhetes de loteria. Quem viveu os anos 90 vai se lembrar das infames raspadinhas. A IBF, inclusive, patrocinava o São Paulo Futebol Clube nessa época, quando o time, em plena Era Telê Santana, ganhava tudo: bicampeão paulista, campeão brasileiro, campeão da Libertadores e campeão mundial interclubes.


Ao saber que a Manchete iria ser vendida, o dono da IBF, o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, viu uma luz acender em sua cabeça. Desenvolveu um plano para SALVAR a emissora e devolver seus momentos de glória que a consagrou em tão pouco tempo no ar. Casado com a filha de José Carlos Moraes (o célebre repórter Tico-Tico da TV Tupi) e amigo de David Raw (grande homem de mídia que literalmente implantou a televisão na Bahia, inaugurando as TVs Itapoan e Aratu), HLO fora aconselhado para não se meter no mundo da TV pois seria uma grande "furada", mas via o negócio como uma oportunidade de expansão de horizontes. Ele tinha sido sócio de Antônio Augusto Amaral "Tuta" de Carvalho e João Carlos Di Gênio para a implantação da TV Jovem Pan canal 16 UHF de São Paulo.

Após dois anos de namoro (e de choramingos de Adolpho Bloch), HLO iniciou o processo de compra da emissora, assumindo a quitação da dívida e mais a folha de pagamento dos funcionários, formalizando de praxe os contratos que foram devidamente autorizados pelo Ministério das Comunicações. Num desses contratos, havia uma cláusula importante: um prazo de 5 anos para cumprir os compromissos financeiros citados acima para oficializar de vez a transição de comando.


HLO estava pagando direitinho as parcelas da dívida (que é chamado de passivo na linguagem jurídica) e se dependesse dele, a Manchete seria vendida sem maiores problemas. Aliás, essa injeção inicial de dinheiro garantiu também a manutenção técnica dos equipamentos de gravação (fitas Beta, câmeras, aparelhos de VT, ilhas de edição, etc.), mas nesse trâmite todo, tiveram que deixar a sede do Russell, alugaram um prédio no Morro do Sumaré no Rio de Janeiro e transferiram a cabeça-de-rede para São Paulo.

Porém, na virada de 1992 para 1993, sentiu a situação de puro comodismo de Adolpho Bloch em não se mexer para uma mudança substancial no que diz respeito a parte administrativa da emissora e, de propósito, deixou de pagar a última parcela brigado com ele. Pressionado pelos enciumados sobrinhos, Bloch queria não só retomar o controle da emissora, queria era aumentar o valor da prestação da dívida que HLO estava pagando pontualmente, proposta esta negada pelo dono da IBF.

A versão oficial foi de que a IBF "traumatizou" a Família Bloch na administração da Rede Manchete, pois eles não tinham a joia da coroa do grupo para garantir sua saúde financeira. Somente o faturamento das bem-sucedidas publicações da Bloch Editores (Revista Manchete, Amiga, Pais & Filhos, Desfile, Ele Ela...) era insuficiente para Bloch, que não queria por nada deste mundo deixar o estilo de vida que custou a conquistar desde quando veio da Ucrânia, fugindo da Revolução Russa, para se instalar no Brasil na esperança de viver dias melhores. Como se viu, aqui ele ficou, nunca mais voltou.


Uma vez acionada a Justiça, Bloch conseguiu tomar de volta o controle da sua rede de televisão. Mas em 1999, quando a Manchete foi finalmente vendida a Tele-TV, HLO moveu uma liminar reivindicando para si as cinco concessões (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza) alegando que tinha pago mais de 90% da dívida há seis anos. Ele ganhou em primeira estância, porém, um time inescrupuloso de juízes e advogados, todos ligados ao poder governista de então e apoiados pelo grupo sucessor da Manchete, inventaram uma série de histórias que colocaram a falida IBF no "lixo da história" da TV (como o suposto envolvimento de HLO no Esquema PC) e a Justiça acabou dando ganho de causa em segunda estância a Amilcare Dallevo (atualmente o dono 100% da "Errei de TV").

HLO perdeu muito dinheiro, mas ele não é um aventureiro, não teve medo de investir em televisão, pelo contrário, foi estimulado em trocar a impressão de formulários pela mídia eletrônica. É um homem inocente (e de visão), ele não acabou com a Manchete como dizem por aí, os sobrinhos de Adolpho Bloch foram quem estragaram tudo. Dívidas milionárias com a EMBRATEL, salários dos funcionários atrasados, penduras inusitadas em hotéis, taxas de armazenagem bloqueados no Cais do Porto e até a perda de crédito nas agências de publicidade devido a comerciais não exibidos, foi o bastante para o plano do Grupo IBF em resgatar a Manchete ser sabotado.


Após o falecimento do "seu" Adolpho em 1995, muitos ex-funcionários que até hoje não receberam nada na transição de comando, reclamaram num só coro no final de 1998 quando a crise da Manchete atingiu seu ápice: Pedro Jack Kapeller, vulgo Jaquito (já falecido), tinha dinheiro e não queria pagar os funcionários (Fausto Silva tinha razão no carnaval de 1989 ao ser entrevistado pela reportagem da própria Manchete, pra descobrir o dinheiro do Jaquito era que nem cabeça de bacalhau, tem que ir na Noruega). Os problemas da Manchete sempre foram de natureza administrativa, o que acabou comprometendo, de fato, a parte financeira, como todo mundo sabe.

Como a Rede TV! está passando por um processo de "autodestruição" com esse repasse das ações de Marcelo "Dom Quixote" de Carvalho a Amilcare "Sancho Pança" Dallevo, creio eu que a falência desse erro de emissora (daí o apelido "Errei de TV") será sacramentada com o pagamento integral dos ex-funcionários da Manchete, cuja quantia será o equivalente ao patrimônio dessas "tecnologias baratas" acumuladas ao longo desses mais de 26 anos de existência sem ter acrescentando em nada na história, foi apenas mais uma, um supérfluo de TV que se promoveu às custas da concorrência que tanto paparica. O que dizer de que ainda têm ex-funcionários (e herdeiros de falecidos) da antiga TV Tupi que até agora não viram a cor do dinheiro desde a cassação de 1980, acreditando na promessa do SBT de que todos eles seriam pagos. Disso ninguém fala (e tome ações trabalhistas)!


Por isso que eu sempre digo quando tenho oportunidade em comentar algo oportuno: Amilcare, devolva as concessões pro Hamilton Lucas de Oliveira! Foi o maior erro judicial das comunicações brasileiras não terem passado o controle acionário da ex-Manchete a HLO no ano em que a emissora saiu do ar, em 1999. E nos primeiros meses de atividades da Rede TV!, muitos funcionários ficaram sem receber salário a ponto de tirar a programação do ar por alguns minutos denunciando em público os proprietários mal pagadores (repetindo o feito dos "manchetescos" em 1993).

E digo mais, bem que o HLO pudesse, de quebra, adquirir as concessões da CNT (Curitiba, Londrina, Rio de Janeiro, Americana/Campinas e Campo Grande) pois, depois do falecimento trágico do influente deputado José Carlos Martinez, a rede paranaense perdeu o rumo e se vendeu completamente a muleta financeira do "arrendamento evangélico". É outra rede aberta que está se autodestruindo! Se a TV aberta não se mexer e não se adaptar aos novos tempos que a TV 3.0 poderá proporcionar (e solucionar), seria melhor ela sair do ar para sempre. Afinal, pra quê ela existe então? Pra ter ciúme do sucesso dos Netflix e YouTubes da vida? Pro telespectador parar no tempo de propósito por excesso de orgulho? Ou servir de reduto para ganância de gente que desmanda e não entende nada de TV e mídia eletrônica? Afinal, em que ano nós estamos? 1998?

#JustiçaHLO

PS: Para conhecer melhor o caso, clique nos links a seguir e assista as entrevistas que Johnny Raw, filho do finado David Raw, e o próprio Hamilton Lucas de Oliveira concederam ao jornalista Luiz Santoro no canal Memória Manchete do YouTube.