OPINIÃO: A Que Ponto Chegamos (Especial de 10 Anos)

Hoje é dia 8 de novembro e este blog completa 10 anos de vida , não imaginaria atravessar a década como dono de blog, mesmo estando em baixa...

sábado, 28 de março de 2026

ESPECIAL: Justiça ao Hamilton Lucas de Oliveira


TV aberta hoje é coisa pra terceira idade. Isso não é uma ofensa ou provocação sarrista, é a mais pura realidade. Cerca de 90% das pessoas que atingem a casa dos 60 anos, seja homem ou mulher, são as maiores consumidoras de TV aberta no Brasil. Escravos da Globo? Aversão a digitalização? Resistência ao streaming? Ou problema cultural? Se a TV 3.0 tem a intensão de "salvar" a TV aberta brasileira, prestem atenção na história a seguir, trata-se de uma tentativa de salvação não-correspondida.

Em 1992, a Rede Manchete se encontrava numa crise avassaladora e seu proprietário, Adolpho Bloch, tinha cogitado publicamente a possibilidade de vender a emissora, até porque sua dívida ultrapassava a casa dos 100 milhões de dólares. O que motivou tal situação foi o fracasso retumbante da novela Amazônia, cuja proposta era ser uma "continuação" do monstruoso sucesso que Pantanal havia sido.

Em São Paulo, havia um conglomerado que não tinha nada a ver com o audiovisual, a Indústria Brasileira de Formulários, que atravessava um momento de prosperidade plena. Seus serviços eram solicitados, tanto do setor privado quanto do setor público, para a impressão de documentos de identidade, passagens de avião, talões de cheque, papéis-moedas e, principalmente, bilhetes de loteria. Quem viveu os anos 90 vai se lembrar das infames raspadinhas. A IBF, inclusive, patrocinava o São Paulo Futebol Clube nessa época, quando o time, em plena Era Telê Santana, ganhava tudo: bicampeão paulista, campeão brasileiro, campeão da Libertadores e campeão mundial interclubes.


Ao saber que a Manchete iria ser vendida, o dono da IBF, o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, viu uma luz acender em sua cabeça. Desenvolveu um plano para SALVAR a emissora e devolver seus momentos de glória que a consagrou em tão pouco tempo no ar. Casado com a filha de José Carlos Moraes (o célebre repórter Tico-Tico da TV Tupi) e amigo de David Raw (grande homem de mídia que literalmente implantou a televisão na Bahia, inaugurando as TVs Itapoan e Aratu), HLO fora aconselhado para não se meter no mundo da TV pois seria uma grande "furada", mas via o negócio como uma oportunidade de expansão de horizontes. Ele tinha sido sócio de Antônio Augusto Amaral "Tuta" de Carvalho e João Carlos Di Gênio para a implantação da TV Jovem Pan canal 16 UHF de São Paulo.

Após dois anos de namoro (e de choramingos de Adolpho Bloch), HLO iniciou o processo de compra da emissora, assumindo a quitação da dívida e mais a folha de pagamento dos funcionários, formalizando de praxe os contratos que foram devidamente autorizados pelo Ministério das Comunicações. Num desses contratos, havia uma cláusula importante: um prazo de 5 anos para cumprir os compromissos financeiros citados acima para oficializar de vez a transição de comando.


HLO estava pagando direitinho as parcelas da dívida (que é chamado de passivo na linguagem jurídica) e se dependesse dele, a Manchete seria vendida sem maiores problemas. Aliás, essa injeção inicial de dinheiro garantiu também a manutenção técnica dos equipamentos de gravação (fitas Beta, câmeras, aparelhos de VT, ilhas de edição, etc.), mas nesse trâmite todo, tiveram que deixar a sede do Russell, alugaram um prédio no Morro do Sumaré no Rio de Janeiro e transferiram a cabeça-de-rede para São Paulo.

Porém, na virada de 1992 para 1993, sentiu a situação de puro comodismo de Adolpho Bloch em não se mexer para uma mudança substancial no que diz respeito a parte administrativa da emissora e, de propósito, deixou de pagar a última parcela brigado com ele. Pressionado pelos enciumados sobrinhos, Bloch queria não só retomar o controle da emissora, queria era aumentar o valor da prestação da dívida que HLO estava pagando pontualmente, proposta esta negada pelo dono da IBF.

A versão oficial foi de que a IBF "traumatizou" a Família Bloch na administração da Rede Manchete, pois eles não tinham a joia da coroa do grupo para garantir sua saúde financeira. Somente o faturamento das bem-sucedidas publicações da Bloch Editores (Revista Manchete, Amiga, Pais & Filhos, Desfile, Ele Ela...) era insuficiente para Bloch, que não queria por nada deste mundo deixar o estilo de vida que custou a conquistar desde quando veio da Ucrânia, fugindo da Revolução Russa, para se instalar no Brasil na esperança de viver dias melhores. Como se viu, aqui ele ficou, nunca mais voltou.


Uma vez acionada a Justiça, Bloch conseguiu tomar de volta o controle da sua rede de televisão. Mas em 1999, quando a Manchete foi finalmente vendida a Tele-TV, HLO moveu uma liminar reivindicando para si as cinco concessões (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza) alegando que tinha pago mais de 90% da dívida há seis anos. Ele ganhou em primeira estância, porém, um time inescrupuloso de juízes e advogados, todos ligados ao poder governista de então e apoiados pelo grupo sucessor da Manchete, inventaram uma série de histórias que colocaram a falida IBF no "lixo da história" da TV (como o suposto envolvimento de HLO no Esquema PC) e a Justiça acabou dando ganho de causa em segunda estância a Amilcare Dallevo (atualmente o dono 100% da "Errei de TV").

HLO perdeu muito dinheiro, mas ele não é um aventureiro, não teve medo de investir em televisão, pelo contrário, foi estimulado em trocar a impressão de formulários pela mídia eletrônica. É um homem inocente (e de visão), ele não acabou com a Manchete como dizem por aí, os sobrinhos de Adolpho Bloch foram quem estragaram tudo. Dívidas milionárias com a EMBRATEL, salários dos funcionários atrasados, penduras inusitadas em hotéis, taxas de armazenagem bloqueados no Cais do Porto e até a perda de crédito nas agências de publicidade devido a comerciais não exibidos, foi o bastante para o plano do Grupo IBF em resgatar a Manchete ser sabotado.


Após o falecimento do "seu" Adolpho em 1995, muitos ex-funcionários que até hoje não receberam nada na transição de comando, reclamaram num só coro no final de 1998 quando a crise da Manchete atingiu seu ápice: Pedro Jack Kapeller, vulgo Jaquito (já falecido), tinha dinheiro e não queria pagar os funcionários (Fausto Silva tinha razão no carnaval de 1989 ao ser entrevistado pela reportagem da própria Manchete, pra descobrir o dinheiro do Jaquito era que nem cabeça de bacalhau, tem que ir na Noruega). Os problemas da Manchete sempre foram de natureza administrativa, o que acabou comprometendo, de fato, a parte financeira, como todo mundo sabe.

Como a Rede TV! está passando por um processo de "autodestruição" com esse repasse das ações de Marcelo "Dom Quixote" de Carvalho a Amilcare "Sancho Pança" Dallevo, creio eu que a falência desse erro de emissora (daí o apelido "Errei de TV") será sacramentada com o pagamento integral dos ex-funcionários da Manchete, cuja quantia será o equivalente ao patrimônio dessas "tecnologias baratas" acumuladas ao longo desses mais de 26 anos de existência sem ter acrescentando em nada na história, foi apenas mais uma, um supérfluo de TV que se promoveu às custas da concorrência que tanto paparica. O que dizer de que ainda têm ex-funcionários (e herdeiros de falecidos) da antiga TV Tupi que até agora não viram a cor do dinheiro desde a cassação de 1980, acreditando na promessa do SBT de que todos eles seriam pagos. Disso ninguém fala (e tome ações trabalhistas)!


Por isso que eu sempre digo quando tenho oportunidade em comentar algo oportuno: Amilcare, devolva as concessões pro Hamilton Lucas de Oliveira! Foi o maior erro judicial das comunicações brasileiras não terem passado o controle acionário da ex-Manchete a HLO no ano em que a emissora saiu do ar, em 1999. E nos primeiros meses de atividades da Rede TV!, muitos funcionários ficaram sem receber salário a ponto de tirar a programação do ar por alguns minutos denunciando em público os proprietários mal pagadores (repetindo o feito dos "manchetescos" em 1993).

E digo mais, bem que o HLO pudesse, de quebra, adquirir as concessões da CNT (Curitiba, Londrina, Rio de Janeiro, Americana/Campinas e Campo Grande) pois, depois do falecimento trágico do influente deputado José Carlos Martinez, a rede paranaense perdeu o rumo e se vendeu completamente a muleta financeira do "arrendamento evangélico". É outra rede aberta que está se autodestruindo! Se a TV aberta não se mexer e não se adaptar aos novos tempos que a TV 3.0 poderá proporcionar (e solucionar), seria melhor ela sair do ar para sempre. Afinal, pra quê ela existe então? Pra ter ciúme do sucesso dos Netflix e YouTubes da vida? Pro telespectador parar no tempo de propósito por excesso de orgulho? Ou servir de reduto para ganância de gente que desmanda e não entende nada de TV e mídia eletrônica? Afinal, em que ano nós estamos? 1998?

#JustiçaHLO

PS: Para conhecer melhor o caso, clique nos links a seguir e assista as entrevistas que Johnny Raw, filho do finado David Raw, e o próprio Hamilton Lucas de Oliveira concederam ao jornalista Luiz Santoro no canal Memória Manchete do YouTube.